voltar a pagina principal
where we are
banerengl03

Rua Porto dos Tainheiros, 36 40420250 Salvador, Brasil tel +71-3207-7717

Via Colonello  Tommasso Masala, 42- 00148 Roma Italia tel: 06-60200544


englishflag italianflag brazilianflag
New

Leonardo da Vinci
Library Inaguration

18/01/2006- 03/02/2006

Donations

x-click-butcc-donate02

How it began the idea of the Ele D´Artagnan International Art and Music School (for more info click on History)

dart

e56w40204

Works going on

ILGRAFF03

 The ICBIE Artists

jjj

Biografia

ggg

foto

eee

esposizioni

fff

Opere

nnn

articoli

D_Artagnan-con-Sophia-Loren

film

ELE D’ARTAGNAN

Biografia cronológica

 1911              

Ele D’Artagnan nasceu em Veneza no dia 23 de Novembro de 1911, filho de uma “mulher que preferiu manter seu anonimato” e foi apresentado às 23 horas do mesmo dia para ser registrado na Casa Comunal pela parteira Amalia Verza, de 61 anos e outras duas testemunhas, Anna Albanese, de 67 anos e Giulia Gregolin de 49 anos. As três mulheres declaram que, por vontade da mãe, o recém-nascido deveria se chamar Michele Stinelli (o sobrenome era falso). Sem parentes, o pequeno Michele foi enviado ao Instituto Provincial para a Infância de Veneza S. Maria della Pietà, um orfanato.

1920

Enquanto freqüentou a escola elementar para os órfãos, no colégio interno, era enviado a passar as férias dos períodos estivos com várias famílias de camponeses, em povoados das províncias de Pádua e Treviso (Zero Branco, Sambughè, Preganziol etc.), para trabalhar nos campos e tentar assim conquistar uma vida familiar adotiva. Mais tarde, disse várias vezes ter tido naquele período dez madrinhas, sem contar a Madre superiora. Aprendeu os primeiros rudimentos musicais na escola noturna que freqüentou, sendo aluno do maestro Casagrande.

1921/22

Ao se mudar de Veneza para Preganziol, continou a freqüentar o colégio e a ter lições de música e de trompa. Logo depois se inscreveu no Instituto Regio Musical Francesco Manzato de Treviso .

1923/25

Freqüentou, com o diretor Zanuzzi, sua primeira escola de representação  no teatro Garibaldi, de Treviso. Nesta época, aos 14 anos, nascia sua paixão pelo teatro e pela bicicleta. Sobre esta época, ele irá escrever: “ Enfim, eu corria de bicicleta e batia em todo o mundo... Eu era um camponês orgulhoso de mim mesmo aos 14 anos...e recebia visitas de pessoas estranhas, periodicamente...”. Mais tarde ainda irá se definir como “artista e ator camponês”.

1926/29

Conclui a sua formação média e o estudo da trompa no colégio interno, neste perîodo entre Veneza e as famílias adotivas camponesas das províncias de Treviso e Pádua. Atua em um ensaio teatral na Ca’ Pesaro, em Veneza. Em 17 de fevereiro, presta o serviço militar na escola de cadetes da Guarda de Finanças, sendo enviado aos confins dos Alpes, em Sondrio. O serviço militar se conclui em 22 de fevereiro de 1933.

 1934/36 

É chamado a Roma, para prestar novamente o serviço militar. Vai de Treviso a Roma de bicicleta na companhia de um amigo. Ambos são trompistas da banda do Rei e do Duce, aos quais serve a partir de 21 de junho de 1934. Muda-se definitivamente para Roma, onde, segundo ele, tem a honra de se transformar em cidadão romano. Sempre como militar, passa um período em Arezzo. Seu compromisso com a banda em tempo integral termina em 1936, embora continue inscrito nela e à sua disposição. De vez em quando, continua a ser convocado, em ocasião das grandes manifestações patrióticas, entre as quais a chegada de Hitler a Roma, em 1938.

 1938/48

 Nestes dez anos, exerce a profissão de representante comercial. Reside e tem sua base de atividades em Milão, mas passa longos períodos em Bolzano, Veneza, Treviso, Pádua, além de algumas idas a Roma. Trabalha para as empresas Borletti, AEG, Alemagna, Motta etc.

Explode a guerra e começa uma época difícil para todos, sobretudo com a chegada dos nazistas, quando por qualquer motivo, corria-se o risco de ser deportado para os campos de concentração. D. falava sempre do episódio no qual salvou um partigiano, em Milão, em 1944, na via Vitruvio. Intercalava seu trabalho como representante com apresentações de teatro cômico, música, além de atuar como apresentador em manifestações de moda, arte, novas celebridades e concursos de beleza, em várias cidades (Como, Bérgamo, Bréscia, Mogliano, Vêneto, etc.). Em Preganziol atuou na famosa comédia “Nina, non far la stupida”.

Estreou no cinema como figurante nos filmes “Fabíola” e “O Sinal da Cruz”. O conto com o qual venceu o concurso literário promovido pelo jornal “Milano Sera”, após a guerra, infelizmente se perdeu. Venceu outro prêmio literário com sua novela “La Casa”, que foi publicada na “Gazzetta di Venezia” com a ajuda do professor Giorgio Zamberlan, então diretor da revista “Italie et Suisse”. Dedica-se também ao desenho e à pintura; sua primeira “abóbora” em aquarela data de 1939, e foi conservada. O tema da abóbora será constante em sua obra futura, é um ícone que não só testemunha a sua origem camponesa (de acordo com a sua auto-definição como artista-camponês), como também significa o Eros que emana dos frutos da terra. Participa de fotonovelas e continua a ser apresentador de espetáculos enquanto abandona gradualmente o seu trabalho como representante comercial.

1950

Durante muito tempo perseguiu com obstinação e perseverança o sonho de descobrir a sua verdadeira família, seus pais, sua mãe. Com esta finalidade, retorna constantemente a Veneza e Treviso. Finalmente, após anos de pesquisa, descobre, em 18 de julho de 1950, o nome de sua mãe, que o entregara ao Instituto S. Maria della Pietà, por ser solteira. Seu nome era Elena Lombardi. Nascida em Veneza, em 1888, fora harpista na orquestra do “Scala” de Milão.

A partir desse dia, escreverá pelo resto de sua vida a data da descoberta, adotando por conta própria o sobrenome Lombardi, apesar de não ter conseguido registrá-lo oficialmente. Continuou a fazer investigações sobre o pai e o resto de sua família, entregando-se a uma obsessão cada vez mais maníaca pela busca da verdade. Sua obstinação fez com que, em meados dos anos 60, fosse preso por quase dois meses, acusado de difamação contra os seus familiares, por causa da herança. A partir daí tornou-se cada vez mais frágil psiquicamente; passou a ter visões e ser atormentado pelo complexo de perseguição. Os Lombardi eram uma família rica e até mesmo aparentada (por parte da meia-irmã de D’Artagnan) com um político importante, um ministro italiano pertencente à Democracia Cristã. É compreensível que a história de um ator órfão e pobre, que se apresentava na porta de um grande político com todos os documentos fosse sistematicamente ignorada. Se fosse verdadeira e pudesse ser provada, iria diminuir as riquezas da família e causar um escândalo, além de manchar a honra do famoso político e de seu partido. O mistério policial, a mãe, o sobrenome verdadeiro Lombardi, a traição da irmã, a herança, a rejeição ao falso “stinelli” (que assinará sempre em minúsculas apenas quando obrigado, como em seus documentos), a luta para obter seu verdadeiro sobrenome e, a partir dos anos 70, a sobreposição de outro sobrenome – Toscanini (parece que sua mãe, harpista no “Scala”, tivesse tido relações com Toscanini), serão os temas dominantes até os últimos dias de sua vida.

Por detrás da maioria de suas pinturas e desenhos estará sempre inscrita a sua demanda insolúvel, primeiro identificando-se como filho de Elena Lombardi, e mais tarde, de Toscanini. Era talvez o sinal de uma carência de afetos familiares, de uma casa, de um aconchego doméstico que nunca tivera e que jamais iria ter. De fato, “a casa” é outro ícone sempre presente em seus quadros.

1951

Uma outra mulher seria o motivo de sua celebridade nos jornais e revistas de moda e costume da época. Descobriu e lançou um personagem público na Itália dos meados dos anos 50: Edy Campagnoli. Ela foi a primeira figura feminina em destaque da nascente TV italiana; assistente de palco do show-quiz “Lascia o raddoppia” apresentado por Mike Buongiorno, que foi apresentado a partir de 1955. A relação entre ambos é testemunhada por fotos e por uma declaração assinada por Campagnoli em 1951, além de quatro cartas que foram salvas da umidade. Em outro artigo, também de 1951, anunciava-se que o ator D’Artagnan estava de mudança para Roma, para atuar na Cinecittà, na época em plena ebulição como centro do cinema internacional, posição que manteve durante toda a década de 60. Enquanto isto participou como figurante em três filmes: “Messalina”, de Carmine Gallone, “Il miracolo di viggiù”, sob a direção de Luigi M. Giachino e “Os Três Mosqueteiros”, produzido pela hoje extinta Palmas Español Film. Surge aí o seu nome artístico D’Artagnan.

1952

De volta a Roma, obtém excelentes resultados nos testes para ator “secundário extra”, prestados diante da comissão estatal para o cinema, presidida pelo professor Casagrande. Começa a se familiarizar com o vasto mundo cinematográfico, não só com o ambiente da “Cinecittà”, como também passa a ser habitué dos locais freqüentados pelos atores e diretores de cena: os bares  na Via Veneto e Canova e Rosati, na Piazza del Popolo, além de restaurantes e tavernas do centro histórico e do Trastevere. Passa a ser conhecido por todos; além das personagens ligadas ao cinema encontra também políticos, funcionários, nobres, altos prelados, comerciantes e gente comum.

Sua popularidade cresce em Roma também pelo seu jeito de ser único e particular, cheio de energia, de simpatia, de gracejos fantasiosos e visionários, único e genial, cópia de ninguém. Consegue um papel no filme Puccini, de Carmine Gallone, estrelado por Gabriele Ferzetti e Nadia Grey. E é justamente no final de 1952, no dia de São Silvestre, que D. surge na Via S. Giovanni Decollato, no Fórum Romano, na casa da família Gallina. Procura uma vaga para dormir que uma mãe de seis filhos (com o marido doente que morrerá pouco depois) alugava para conseguir alguns trocados a mais. Sua presença traz um pouco de sonho e de esperança para a família. Um ator que trabalha na Cinecittà! Um mundo de fábula e de dinheiro, em contraste com uma Roma mergulhada num pós-guerra feito de pobreza, de desemprego e de agruras para a maior parte da população. Todos sonhavam em ficar ricos do dia para a noite e Roma tinha apenas a indústria do cinema para realizar este sonho. Eram os anos do neo-realismo, que haviam produzido Paisà e “Ladrões de bicicletas”. Ficará com aquela família até 1957, mas continuará a ser de casa para o resto da sua vida com visitas constantes.

1953    

 Na família Gallina encontra um certo calor familiar, apesar de as promessas de uma riqueza imprevista começarem a diminuir. Nas férias de verão ou durante as tardes, após a escola, escolhe o pequeno Pietro, então com cinco anos, para acompanhá-lo em suas excursões pela cidade, ao encontro de padres, gente de cinema, políticos, comerciantes, jornalistas etc.

Trata-se aqui de ter um pequeno escudeiro, um pupilo e companheiro que escute extasiado suas fábulas, mitos, histórias, e seja a testemunha de seus gestos. Que o veja furioso como Orlando e Dom Quixote em sua energia positiva empolgante, incansável e solar ou em seus momentos de tênue choro de desespero. E que fosse até mesmo um compadre quando se tratava de despertar a piedade dos vários padres, políticos, aristocratas e comerciantes para que eles ajudassem com dinheiro uma família pobre, ou atendessem a um pedido de trabalho.

Pietro iria vagabundear freqüentemente com ele até 1963, até sua prisão no cárcere de Regina Coeli e sua expulsão para as ruas de Milão, onde estava domiciliado.

1953 é também o ano em que atua nos filmes La figlia del reggimento, de Túlio Covaz e “Sul ponte dei sospiri”,de Leon Viola, que começara a ser filmado um ano antes na Cinecittà.

Sua relação de amigo/confidente/amante continua, com Edy Campagnoli. De Milão, ela envia boas notícias relativas a vários trabalhos e desfiles de moda.

 1954                  

 Trabalha em outros dois filmes: Guai ai vinti! de Raffaele Materazzo, estrelado por Lea Padovani e Anna Maria Ferrero, e Accadde al commissariato, de Giorgio Simoncelli, com Walter Chiari, Alberto Sordi, Lucia Bose e Nino Taranto. São, no entanto, pequenos papéis cujo pagamento é suficiente para que ele viva por dois, três meses no máximo.

 1955 

 É o ano do importante encontro com Federico Fellini no filme Il bidone, com Giulietta Masina.

Imediatamente, passa a considerar Fellini como seu “divino mestre”, e o mestre corresponde incluindo-o no rol de seus personagens bizarros e sonhadores, chamando-o para atuar em mais quatro filmes seus.

É também o ano de sua grande esperança: Edy Campagnoli torna-se a primeira diva da TV italiana no programa Lascia o raddoppia, assistido por mais de 10 milhões de italianos. (É o famoso programa de perguntas e respostas no qual participou inclusive o músico John Cage como especialista em musicologia.

Segundo ele, Edy deveria ter sido o seu ponto de apoio para que ele saísse da vida dura e passasse finalmente à dolce vita, mas isto não acontece. Ela abandona o seu descobridor para se casar com um famoso jogador de futebol. Em suas cartas a D., Edy tenta convencê-lo a deixar Roma e o cinema para conseguir um bom trabalho em Milão, onde ela poderia recomendá-lo.

D. não só recusou o convite como chegou a pensar que Edy tivesse sido coagida e ameaçada para chegar a humilhá-lo tanto, justamente ele, que sentia que poderia chegar a ser um grande ator. Profundamente magoado, escreveu cartas a Edy cheias de insultos, até ao ponto de querela por parte do advogado da rica diva.

Além do Bidone de Fellini, atua em outros dois filmes: La cortigiana di Babilonia, dirigido por Carlo Bragaglia e La fortuna di essere donna de Blasetti, com Sophia Loren e Marcello Mastroianni.

Mesmo pobre, veste-se sempre elegantemente e freqüenta os melhores locais mundanos: Via Veneto, Rosati, vernissages, festas, concursos e noites de gala.

 1956

 É um ano magro, atua somente no filme Le schiave di Cartagine, e 1957 será ainda mais vazio, até mesmo porque recomeça a recolher dados sobre a sua rica família Lombardi.

Aceita o auxílio por parte de nobres pertencentes à “Monarquia  sabauda”, seu partido do coração.

Como nas fábulas, queria ser o bom cavaleiro que sempre serve fielmente a seu rei, um rei dispensador de verdade e justiça. Aceita também fazer propaganda para o Partido Monarquista e se torna amigo do onorevole Covelli e de Lauro, dos quais receberá de vez em quando uma ajuda financeira. Continuam seus contatos com a vida mundana de Via Veneto e as noites de gala.

 1957    

 Após a breve viagem triunfal de sua velha paixão Edy a Roma, em abril e o encontro de ambos que esclarece as suas divergências passadas, ele a segue até Milão, para um novo encontro, em julho, que entretanto, será a última vez. Em Milão aproveita para recolher mais documentos e testemunhos sobre sua família. No Corriere Lombardo é publicado o artigo “A amarga história de um ator pobre: D’Artagnan procura o pai”.

Novamente em Roma, depois de um épico confronto com um mafioso que zomba dele na casa dos Gallina, por motivo de “ordem pública” é levado à casa de uma vizinha para ocupar um quarto de aluguel (mais caro).

  1958

 Em Roma, as portas da  televisão começam a se abrir também para D.

Conhece o diretor Anton Giulio Majano, que o contrata de boa vontade para atuar em um drama televisivo:Capitan Fracassa. Outro encontro importante se dá com Elmo de Sica, que o apresenta ao célebre Vittorio de Sica.

Daí, novamente atuou no cinema, no filme Anna di Brooklyn, de Carlo Lastricati, estrelado por Amedeo Nazzari, Vittorio De Sica e a estupenda Gina Lollobrigida, com quem se faz fotografar. Daqui até 1961 sua vida prossegue com menos dificuldades econômicas. Fala sempre de uma certa ‘Jacqline’, filha de um diplomata, por quem está perdidamente apaixonado.

 1959       

 Na RAI TV é contratado para atuar em vários filmes para a televisão: I figli di Medea com Enrico Maria Salerno, dirigido por Majano; Il romanzo di un maestro com Calindri e Zoppelli, sob a direção de Landi; Ragazza mia, sempre para Landi com Lea Padovani e Shilla Gabel; Gli oggetti d’oro com Cosetta Greco e Fosco Giacchetti, ainda sob a direção de Landi; e a célebre Isola del Tesoro no papel do  pirata ‘Harry’ com Foà, Moschin, Garrani, Pani, Lay, dirigido por  Majano.

No cinema, está presente nos filmes Cartagine in fiamme de Gallone e Il corsaro della Tortue com Giovanni Paolucci.

 1960

 Volta à se dedicar à querela sobre sua família, e tendo recolhido todos os documentos, apresenta queixa contra o tio, Carlo Lombardi, pedindo uma indenização que naqueles tempos era fabulosa: 50 milhões de liras. Um artigo sobre a demanda aparece no Messaggero de Roma em 13/8/1960, intitulado “Abandonado quando criança querela o tio”. Alguns dias antes tinha entrado com um processo contra um diretor da Titanus Film, que o impedira de entrar nos estúdios de filmagem. Começam aqui as inúmeras querelas que fará contra todos aqueles que fizerem contra ele qualquer dano, particularmente numerosos da década de ’60 até meados dos anos 70. Nada disso facilita a busca de papéis no cinema, pois suas loucuras começam a incomodar o ambiente. Mas consegue obter alguns trabalhos nos “carrosséis” publicitários da TV; em um deles interpreta, ironia da sorte, o pintor louco Van Gogh. Muda-se para uma bela casa na Via S. Veniero, 37, perto dos Museus do Vaticano. Desenha abóboras e máscaras em papéis de refugo.

 1961

 Tendo em vista que o processo contra o tio não dera resultados, em 5/4/61 publica no Gazzettino di Venezia(na página de Mestre)  um longo artigo onde relata mais ou menos os acontecimentos relativos ao seu nascimento e ao desenvolvimento de sua demanda, reproduzindo os documentos apresentados em sua denúncia. Nenhuma resposta por parte da família. Neste período trabalhou como apresentador de festas e espetáculos em restaurantes, hotéis e salões de baile, entre Roma, Óstia e o litoral da Romanha.

Em 8 de junho salva a vida de Pietro Gallina, então com 13 anos, ao diagnosticar um início de peritonite, levando-o com urgência ao hospital. Perde as esperanças em relação à uma de suas amadas, Costanza, que se casa com outro.

 1962

 É processado por calúnia e difamação por sua irmã carnal Anna Maria, mulher do ministro democrata-cristão. Um artigo publicado no Messagero de 15 de maio de 1962 apresenta fortes contradições: se Elena Lombardi, mãe de D., famosa harpista morta na miséria em Milão fora reconhecida como a mãe real, porque as autoridades sempre recusaram em atribuir o nome Lombardi àquele que o desejava acima de qualquer outra coisa?

 1963                  

 E’ preso por calúnia e difamação e conduzido ao cárcere de Regina Coeli, onde ficará de 3 a 26 de março e mais tarde, de 26 a 29 de setembro, com mais outros sete dias, num total de 43 dias de detenção. É enviado de volta a Milão onde deverá ficar contra a sua vontade até meados de 1964.

 1964                                   

 De Milão escreve que não vê a hora de tornar a Roma: ali também, todas as possibilidades de trabalho parecem bloqueadas. Quando chega a Roma, seu estado mental piora e passa a sofrer constantes crises de perseguição, mais fortes do que o “normal”. Embora estes sejam breves momentos é, todavia, um ano negro que o tira do belo mundo da dolce vita para fazê-lo entrar no mundo da amara vita. Suspeita também de ‘traição’ dos amigos mais próximos e fiéis, e é impelido a viver nas ruas, sem trabalho. Os Gallina são numerosos, vivem numa pequena casa, e podem ajudá-lo em outras coisas, exceto com um lugar para dormir.

 1965                                   

 Vive de casa em casa, sempre por períodos breves. Chamam-no a Veneza para apresentar algum espetáculo  no Lido; de volta a Roma, as pensões são muito caras para suas posses. Quando o dinheiro ganhado termina, sua única opção é o dormitório público no Monte della Pietà. Muitos amigos o auxiliam com alimento, algum dinheiro e roupas, e novamente é muito ajudado pela família Gallina. No entanto, nenhum deles tem lugar em casa, nem ele aceita um lugar qualquer, não pode ser muito exposto, deve ser trancado por fortes fechaduras, ou cadeados e correntes. Consegue dois papéis em dois filmes: em L’uomo dei 5 palloni, dirigido por Marco Ferreri em 1965 e apresentado como episódio em 1973, e em Signore e Signori, de Pietro Germi.

 1966 

 Mesmo desesperado não renuncia ao sonho de fazer cinema. Reconstrói uma barraca sem fundo  numa pequena favela do Trastevere, onde ficará até 1968, retornando em 1971. Começa a se recuperar, a lutar, procurando qualquer tipo de trabalho. Os desenhos que sempre fizera de forma esporádica se perderam, mas a partir de agora ele passa a desenhar em maior quantidade, pequenos esboços de máscara como os de Fellini, que algumas vezes são vendidos e o ajudam a sobreviver.

 1967

 É ainda Fellini que recebe os apelos desesperados de D. para conseguir um papel no episódio de ““Toby Dammit” no filme Tre passi nel delirio. Recebe pelo trabalho mais ou menos 70.000 liras (os comprovantes de pagamento foram conservados), que bastam-lhe para viver cerca de 2 ou 3 meses. Passa por alguns momentos de serenidade. Escreve denúncias, cartas e anúncios dirigidos a jornais, políticos, atores etc. Desenha com lápis de cor abóboras, cabeças, flores, casas, pênis e vaginas: tudo isto se perdeu, apodrecido numa das cinco malas que ele deixou em uma gruta.

 1968

 A partir deste ano, novamente sem trabalho e sem dinheiro, ele mergulha em seus quadros/desenhos, que são sua única válvula de escape e seu único conforto. É inacreditável, mas ele não pretende vendê-los, pois são como criaturas suas, cheias de sua vida e de seus sonhos. Vendê-los seria quase como traí-los, renegá-los. Somente três anos depois, com as exposições feitas na rua, em Via Margutta, estimulado pela amiga Novella Parigini, começará a vender algumas obras, mesmo porque seus preços eram altíssimos para o mercado da época. Uma pequena pintura podia custar até um milhão de liras, numa época em que um salário médio era de 200.000 liras. Apaixona-se loucamente por uma garota alemã chamada Rosy Marg que o segue e o admira como artista e gênio; porém não são claras as suas intenções. Por detrás de seus inúmeros desenhos estão os breves pensamentos de amor por ela, que irão durar de forma obsessiva durante todo o ano seguinte até o adeus. Nutre a esperança de se casar com ela, de vencer seu processo contra a família, de possuir finalmente uma casa própria e filhos. É uma época de vazio total em relação aos trabalhos para TV e cinema.

  1969

 É convidado para viver em casa de um antiquário alemão, um certo senhor Adalbert Utsch, em Via del Babuino, 36/II, na Piazza di Spagna. Em troca, deveria percorrer Roma vendendo para ele moedas e objetos de arte. Tanto o senhor Utsch quanto sua admiradora e amante Rosy o estimulam a continuar produzindo seus quadros. Pinta sobretudo vultos e cabeleiras. Nenhum trabalho para a cinema e TV ainda. No dia 30 de setembro de 1969 o sr. Utsch o expulsa de casa após uma violenta discussão na qual ele acusa Utsch de ter se vendido à família Lombardi por meio de uma sua assinatura em branco num papel para a venda de discos de Caruso. Encontra-se novamente nas ruas de Roma a vagabundear. Pietro Gallina guarda suas malas por algum tempo e lhe oferece um pouco de dinheiro.

  1970             

 Passa um ano a vagabundear de casa em casa, em dormitórios públicos e religiosos e pelas ruas. Pietro Gallina encontra-se em Cremona e depois em Bracciano para o serviço militar e não pode ajudá-lo. Além disso sua adorada Rosy Marg o abandonara. Não encontra trabalho algum, mas em sua aflição continua a se consolar com os seus quadros e “forte na fé em Deus que possuo não perco as esperanças de salvar-me do addiaccio (isto é, de dormir pelas ruas)”. Depois de investigar sobre Toscanini e sobre sua mãe harpista no Scala de Milão, fica persuadido de que seu verdadeiro pai é mesmo Toscanini. Mostra suas fotos comparadas às de Toscanini e sublinha a sua extraordinária semelhança.

  1971

 Suas pinturas começam a ser apreciadas, e agora passa a vendê-las até porque é forçado a isto. Aceita expor na Mostra dos Cem Pintores de rua em Via Margutta, convencido por Novella Parigini. Seus preços são muito elevados para que ele pudesse vender bem. De um total de 40 peças vende 12, que lhe servem para sobreviver. O sorriso volta ao seu rosto: aos afortunados compradores diz “ai de vocês se copiarem  a minha arte ou venderem-na ao inimigo”. Participa na Mostra de Grottaferrata, e vende poucas coisas. No outono, tem dinheiro suficiente para reformar outra velha barraca na favela do Trastevere onde ficará até os anos ’80. Também escreve à Paramount Pictures Corporation para pedir trabalho. Há até um envelope de resposta. Nenhum filme. O Banco de  Roma compra seis desenhos por 130.000.

 1972

 Apesar de tudo, sente-se mais seguro em sua nova barraca e passa por um período de serenidade, mas sofre também de imprevistos ataques de paranóia, além de surtos de pranto inconsolável, que desafogam sua ânsia de afeto duradouro. Por causa da paranóia reduzirá  cada vez mais as suas saídas noturnas. Outros confortos em sua barraca são as recordações, o radinho de pilha sempre ligado e os trabalhos de pintura. Por não ter sempre papéis e tintas, começa a trabalhar com pedaços de papel, papelões e madeiras encontradas nas ruas. É presenteado freqüentemente com material para pintura. Depois de conseguir entrar em contato com Fellini, com extrema dificuldade, recebe um convite para um papel no final de Amarcord.O chamado o deixa entusiasmado e reacende sua paixão pelo cinema. Processa a Anagrafe Comunale que se recusa a inscrevê-lo com seu nome verdadeiro, Lombardi. Nova exposição em Via Margutta.

 1973

Amarcord, que Fellini continua a filmar, entrará em cartaz apenas no ano seguinte. Ao saber de sua triste história, Fellini lhe promete outros trabalhos. Nestes meses recupera um pouco de tranqüilidade e continua a pintar muito, sobretudo quadros coloridos feitos em material de refugo. Não deixa de lutar no processo contra sua família, pelo seu nome e também pelo seu pai Toscanini. Passa a assinar Michele Lombardi Toscanini, pseudônimo D’Artagnan. Vende ainda uns dez desenhos.

 1974/75                     

 Abre a “Trattoria degli Studenti” (Taverna dos estudantes) no bairro Testaccio, idealizada e organizada por  Pietro Gallina. Não é longe da barraca de D. Agora, pelo menos em suas refeições pode sentir-se em família e se alimentar. Aceita a refeição somente em troca de alguma ajuda para limpar as mesas. Encontra na taverna vários personagens, músicos, escritores como Dario Belleza, Moravia, Sinisgalli e também Carlo Monni e Roberto Benigni, também eles com pouco dinheiro. Politicamente é simpatizante dos grandes movimentos socialistas e parece esquecer os Monarquistas, (já extintos). Continuava, porém, um simpatizante fora de época do regresso do rei Savóia à Itália.

  1976

 Participa nas festas e concertos organizados na “Trattoria degli Studenti” apresentando alguns números como apresentador e cômico. Seu mundo está fora do mundo real, é paralelo e imaginário, sonhador, visionário/irônico. Pinta sobre qualquer coisa, também na taverna, sobre os guardanapos, toalhas de papel e caixas de fósforo. Fellini mantém a promessa e o convoca para o seu Casanova. Torna-se de novo radiante quando seu “divino mestre” o faz trabalhar: “Só Federico sabe o quanto eu valho!”. Fica contente por vender um bom número de pinturas.

 1977/78

 Sua presença é regular no restaurante dos estudantes para comer sem pagar, não mais do que duas ou três vezes por semana. Assume pequenos encargos para algumas famílias, como despachar documentos nos escritórios e correios, vende alguns objetos usados, não quer mais participar nas exposições e de novo se recusa a vender seus quadros. Tem tanto medo de que alguém o copie, e roubando-lhe o estilo, roube-lhe também a vida. Tendo a barraca como sua humilde casa fixa, com os amigos estudantes, e a possibilidade de se alimentar passa por um período bastante calmo, mas com algumas repentinas crises de perseguição, constantes mas não violentas.

 1979

De novo Fellini, que filma agora La città delle donne. O “divino mestre” não o esqueceu. Chama-o novamente para um pequeno papel, que será o último. Faz pouquíssimos trabalhos de pintura porque tenta de tudo para retornar ao mundo do cinema, porém os tempos mudaram e a Cinecittà acabou. Aceita  vender alguns trabalhos, só para pessoas de confiança.

 1980

 É um outro período negro. A taverna dos estudantes é fechada, e também, por azar, sua barraca, juntamente com toda a favela do Trastevere, é derrubada para a construção de escolas. A cada família é destinada uma casa, mas não para ele, porque é solteiro e não tem família. Em setembro encontra-se nas ruas, de novo desesperado. Pietro, viajando em concertos, não  pode ajudá-lo. Um dos estudantes, Marco Cinque, trabalha no  “Cul de Sac”: o auxiliará pelo menos com a comida e algum dinheiro.

 1981/83

 Pietro volta e encontra D. desesperado e em péssimas condições na porta de sua casa (Pietro vive agora só, num quartinho 3 x 3 em Testaccio) e o hospeda por algum tempo. Para Pietro, escrever música e artigos de crítica musical e teatral, ler e viver com a envolvente presença de D’Artagnan - um rio maravilhoso de palavras, idéias, sonhos, visões, ironias, brincadeiras, a um metro de distância, em todas as horas do dia - não era nada fácil. Precisaria de um outro quarto. Decide então ceder-lhe a metade do estúdio para ensaios de Via degli Zingari, 52, perto do  Coliseu, em acordo com os membros do grupo de música contemporânea “Spettro Sonoro”. No dia 4 de abril de 1981  Pietro e Pino Gallina fazem sua mudança, com suas malas, várias caixas, uma cama, cobertas e colchão, para o estúdio de ensaios. O grupo deveria dividir com ele o espaço, cada vez que houvesse um ensaio D. devia sair e voltar ao final, cerca de duas, três, quatro horas no máximo. Encontrava-se bem no estúdio, apesar de ser muito úmido. Ali mesmo, em 81, pintou alguns quadros belíssimos. Lentamente, o tempo passava e D. já não estava tão disposto a sair nos momentos (agora raros) dos ensaios, com medo de ser “preso pelos patifes criminosos da D.C., da CIA, do KGB.” O estúdio transformara-se em um aposento cheio de cordões de varal com roupas estendidas, e superlotado de materiais e objetos. Assim, àquele lugar surreal, não era mais possível convidar cantores ou diretores de fora, segundo a maior parte dos sócios. Não podendo mais ensaiar, o grupo deixou o local, interrompendo o pagamento do aluguel. Por alguns meses, Pietro continuou a pagá-lo, ajudado por Guido Zaccagnini e Franco Presutti, ou seja, a minoria de membros do “Spettro Sonoro”, mas faziam-no para ganhar tempo até encontrar outro lugar. Pietro encontrou alguns, mas eram sempre rejeitados por D. Não o agradavam porque, segundo ele, seria fácil ser atacado pela polícia militar ou pelas Forças Especiais da Polícia de Estado (PS), ou então porque os vizinhos de tal casa eram todos espiões, gente de pouca confiança. Estava já entregue ao delírio. E assim, a partir do dia 31/8/83, o aluguel não foi mais pago. D. ficou no estúdio por mais três meses sem pagar, obstinando-se em não vender seus quadros. Muitos deles provavelmente foram destruídos nesse período, porque “podiam ser decifrados”, visto que continham mensagens secretas destinadas às pessoas que podiam salvá-lo, entre as quais também Fellini. Sim, porque por detrás de seu “divino mestre” os seus inimigos haviam fechado todas as portas de comunicação. Violento e irascível como jamais fora, dizia em altos brados que estava sendo traído, em troca de milhões e milhões de liras, pelos amigos mais queridos. Não recusou porém o convite do amigo Pietro para ser transportado a um abrigo e guardar suas coisas em Monte Testaccio, com Pietro Feliziani, artesão e construtor de barris. Suas malas ali ficaram até depois de sua morte. D. as controlava de vez em quando, cobrindo-as bem, com sacos plásticos. Após a sua morte dois dos recipientes se estragaram completamente com as infiltrações, destruindo todos os objetos contidos neles. Foi a boa ação de Sandro Righi e de sua mulher Yvonne, que tomaram posse da gruta depois da morte de Feliziani que salvou o resto de suas coisas.

 1984/87

 Com a exceção de dois ou três mini-desenhos, não existem mais pinturas desta época. Havia pintado pouquíssimo – e muitos quadros ele tinha destruído - e essas obras eram as que estavam nos recipientes estragados pela água. D. não podia e nem queria mais ter um lugar fixo próprio e duradouro. Fugia de um lugar para outro como um animal perseguido por uma alcatéia(bando de lobos). Com mais de 70 anos, sem ter mais nada, era difícil viver numa Itália cinicamente transformada, hedonista e egoísta. Além do mais, os momentos de insanidade negativa e auto-destruidora superavam aqueles serenos. Sim, é verdade que todas as portas estavam fechadas para ele, mas é também verdade que freqüentemente ele mesmo fechava algumas portas que ainda encontrava abertas. Nestes últimos anos teme ser assassinado, e passa a não dizer nem mesmo onde dorme ou onde se refugia. Até 1985, Pietro tenta estabelecer contatos que freqüentemente são positivos, quando se trata de um convite para jantar ou quando ele recebe algum dinheiro, mas jamais ele comenta onde dorme.

Porém, um ano antes de sua morte, em 5/3/86, Pietro recebe uma carta na qual está escrito que ele assinou a condenação à morte de D., em troca de “centenas e centenas de milhões”, pois o mesmo Pietro teria negado que ele fosse o verdadeiro filho de Toscanini. O último período é terrível: D. é um homem que percorre Roma com um florete de esgrima  e uma bengala enrolados em jornal, pronto para agredir, ou então para sorrir novamente a quem o escutasse.  O amigo Pietro o deixa no dia 9 de agosto de 1987 para uma viagem de três meses aos Estados Unidos. Quando retorna é informado de que D. fora recolhido perto da Via Bezzi, no Trastevere, desnutrido, jogado em um canto da rua, moribundo.

Levado ao hospital Forlanini, no dia 13 de outubro, consegue recuperar-se, mas recusa todo tipo de alimento porque diz que é envenenado e recusa também os maquinários de controle pensando que fossem máquinas de morte… enquanto está morrendo! E’ submetido à uma consulta psiquiátrica com um veredicto negativo de simples “psicose crônica”. Faleceu no dia 23 de outubro de 1987 de um colapso cardiocirculatório por ter recusado de se alimentar e consequentemente ter tido um devastante enfraquecimento orgânico.

No cartório de Roma o falso Michele Stinelli resulta ainda vivo: Michele Lombardi é finalmente verdadeiro na morte. 

·       Os dados que compõe esta biografia foram extraídos de documentos, fotografias, o verso das pinturas, cópias das cartas e dos escritos originais encontrados nas suas malas que ficaram quase intactas. O restante foi tirado dos artigos de jornais, dos livros de cinema e dos testemunhos da vida vivida com ele por P.G.

 

All rights reserved by I.C.B.I.E.