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  A OBRA DE ELE D´ARTAGNAN
 Uma constelação onírica

I saw an angel without wings                                   With human smile and a lot to say (Paráfrase de um verso de Gregory Corso)

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Quadros

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 Ironia, sorriso, brincadeira, alegria e desespero invadem o espaço pictórico de Ele D’Artagnan. Se diz que sobre as figuras humanas ou os animais desenhados em modo caricatural, irônico e ridículo – que estão interpretando a deformação alcançada pela humanidade – desce a força vital da cor e da invenção associativa e onírica. O seu repertório simbólico, o repetimos é composto de uma hierarquia de temas ou ícones, ou símbolos que ele elabora em composição  sempre diversas. Como  se possuísse uma escala de sons e quisesse criar uma música. Não se esqueça que  D‘Artagnan. foi também  músico/trompista. Os graus mais importantes na sua escala pessoal, a sua tônica, a dominante e a sub-dominante são: a casa, a máscara vulto, os orgãos genitais masculino e feminino. Repetimos também os  outros graus-ícone acenados na abertura: as flores, a abóbora, a ponte, a palhoça, as   colunas remendadas a árvore da vida, as escadas,  os pássaros, o candelabro com três braços, o guarda-chuva, os lampiões, o  sol,  as três colcheias de terça, os pentagramas musicais, as roupas estendidas, instrumentos de camponês, a fumaça que sai das chaminés, o ninho, a espiral, o anel de saturno, a trompa, cabeça nos pés e o pé  tetradátilo das suas caricaturas humanas. Com o passar dos anos estes ícones sempre presentes serão os elementos com os quais jogar e exprimir os próprios sonhos, o puro jogo ou a crítica. Assim cresce e se constitui uma verdadeira constelação simbólica. Um quebra-cabeça no qual os  ícones acima citados, podem ser – de quadro em quadro – muito mais desenvolvidos, ocupando a parte mais relevante do  espaço; mediamente desenvolvidos e sendo então gregários do ícone protagonista; ser  somente indicados em algum pequeníssimo espaço e frequentemente também  ausentes . Um  procedimento original que devolve sempre ao set de um filme, com protagonistas, gregários  e figurantes que devem  fundir-se em uma  cena única, ressaltando seja a parte relevante, seja os mínimos particulares. É a vontade consciente de ter que  dar espaço e dignidade a todos os participantes no palco do mundo, na festa da vida. Atrás do  cenário  todos espalhados e com as diferenças sociais e econômicas ; dentro do cenário todos importantes mesmo no mais efêmero papel, conservando as diferenças e os valores de cada um, todavia necessários para que  a armação da criação não caia. Consequentemente grandes e pequenos  na responsabilidade do  próprio papel  e por esta razão considerados  essenciais mesmo na dignidade e no direito de ser, e de viver.  O  procedimento criativo não se move só horizontalmente e, como se diz, descreve um projeto de relações sociais onde todos temos reconhecimento. E este por sua vez, prevê um movimento vertical harmônico em mais partes:O ícone dominante, ou melodia; os  ícones de enchimento ou  secundários (alto e tenor) e a base de tudo, a voz de baixo: a cor! Este  procedimento é aplicado geralmente na maioria das suas pinturas .  São exclusos quase completamente os trabalhos dos anos  ’68 e ’69, muitos  dos anos ‘70 e ’71, e mais alguns dos anos sucessivos: em  gênere retratam  vultos, cabeleiras, flores, abóboras  e quase todos estes quadros podem ser exclusos do modo de proceder das partituras corais. Uma vez pensados os ícones fundamentais para  retratar , a técnica é  de lançamento automático; não existe uma preparação de espaço que queira render-se fiel exposição fotográfica do real. Muitas vezes sugeri   a D’Artagnan de experimentar técnicas diversas. Ele  respondia que com a preocupação  da reprodução do real se perdia a liberdade e o privilégio de aprofondar-se na onipotência do sonho, na febre atraente da invenção fantástica, na sedução do jogo criativo. E depois a vontade de sonhar aquele mundo onde querer viver e ser finalmente reconhecido, não  podia realizar-se com os meios técnicos do mundo falso e louco. Aqueles pedaços de papel ou papelões ou madeiras frequentemente encontrados no lixo  – porque ele também era tratado como um lixo pra jogar fora – deviam  ser belos, úteis, extraordinários: deviam  resgatar-se. Naqueles espaços pictóricos casuais ele confessava todos os dias, quadro por quadro,  como em um  epistolário direcionado  aos homens , quanto desumano  tivesse sido transformado aquele  mundo maravilhoso, surpreendente, prodigioso criado por Deus. As declarações que através deste texto possam parecer sérias e  pesantes, não encontro outro modo para comunicar-lhes, vinham expressas sempre”no fio do jogo”, ditas sarcasticamente, ou também quando era dominado pelos seus momentos paranoícos: não eram certos teoremas absolutos ou princípios filosóficos definitivos. Todavia a imaginação empregada em tantos quadros consegue despertar no observador uma emoção não de rigor formal ou de satisfação diante de uma exatidão técnica, mas se percebe inconscientemente  verter alegria e dor destes: como se o espírito de uma vida saísse destas criações e se liberasse em direção ao céu, é como se ele que amava ser notado, nos transportasse em vôo de  símbolo em símbolo, de cor em cor na sua maravilhosa constelação onírica.

 

Glossário simbólico

…A alma fraudada do direito divino em vida, nem mesmo entre as sombras repousa;

mas eu serei enfim realizado na poesia,/a santa,a coisa essencial …

Sou pago se mesmo não me acompanhe aqui em baixo da Terra a minha arte. uma vez eu vivi semelhante aos deuses, não precisa de mais nada

(F. Hölderlin, 1798) 

A obra pictórica de D’Artagnan, uma cosmografia ou mitografia pessoal - é perfeitamente reconhecível, inimitável e unitária. A sua interpretação resulta porém mais complexa, não tanto pelo que exprime em si, quanto pela razão de ter que entrar  pela primeira vez  na sua linguagem “técnica” pessoal e traçar as coordenadas na procura de uma definição. As suas fases criativas podem ser divididas em três momentos: a primeira fase de experimentos  1968/70 que é  essencialmente caracterizada, pela invenção das máscaras, vultos e cabeleiras com os primeiros aparecimentos de casas e flores, além das suas abóboras; são trabalhos na maioria realizados com lápis de cor e alguma tímida aparição de pincéis. Na segunda fase, 1970/78, ‘Artagnan. alcança uma  própria maturidade e segurança técnica utilizando e invadindo os espaços com uma super abundante riqueza de cor; do óleo, ao lápis , à canetinha ,à têmpera, à aquarela, tudo entra em  campo. Se note bem, frequentemente não por razões de escolha, mas casuais considerando que – por falta de dinheiro – nem sempre tinha disponibilidade do material de trabalho. Esta  fase resulta ser a mais corposa; ele completa o seu corolário expressivo simbólico com uma grande presença de casas, flores árvores, falos.  As máscaras continuarão sendo um  leitmotiv na sua produção, estas do período central  mandam sempre ao universo expressivo felliniano, porém com o enriquecimento de um toque poético que  recorda a arte da amiga Novella Parigini. As  casas frequentemente onduladas e tortas ao invés trazem um mínimo estímulo de Chagall que ele  amava muitíssimo, mesmo se as motivações das ondulações são devidas ao vento contrário da harpia, ou das forças do mal. Entram em  campo com insistência nesta fase as grandes “Falofanias* ” com o “Priapo jovem” ou “A dança do amor e da vida”, ou também pinturas isoladas elegantíssimas “Il gondoliere nella Venezia celeste”. A fase final, 1978/84, aquela aérea dominada pelo’”Anjo invejado” ou de “Grupos” ou da “Harpia”, e dos perdidos “Pescoços longos” – um tempo numerosos , mas dos quais restam três esboços  e somente um desenho  - se baseia mais no movimento e na liberação- purificação do espaço branco. A tenacidade de encher e intervir em cada ângulo à disposição se aquieta. Declina a  cor a óleo e se retorna aos lápis coloridos com alguns toques de outros materiais,  canetas e canetinhas. Me recordo bem que D’Artagnan no período da “Taverna dos estudantes”, 1974/’80 e dos anos ’81/83, então hospéde do nosso estúdio para ensaios musicais “Spettro Sonoro”, influenciado talvez  pelas músicas informais e dissonantes que ensaiávamos seja na taverna que no estúdio, tentou  uma espécie de modernização nos seus desenhos, experimentando a técnica de divisão e decomposição dos seus próprios  símbolos, quase fazendo pensar em  uma sua idéia de cubismo. Infelizmente aquelas estupendas tentativas, realmente surpreendentes e geniais, foram destruídas pela água. Ficaram algumas dos anos 77/78 completas, e outras esboçadas, o quanto basta para entender em qual direção estivesse se movendo naqueles seus últimos anos de vida.

Domenico Cerutti um estudioso de arte que ainda resulta ser a única fonte interpretativa de D’Artagnan, assim descreve em 1982 a sua obra:” Me surpreende constatar de como ainda não se deram conta, adequadamente , do grande talento deste mestre da cor, que realmente merece uma atenção mais significativa…  A sua personalidade passional, decididamente otimista, no sentido que cada travessia constitui para ele motivo de luta para  a vitória, confiante, esperançoso e altruísta como um cavaleiro bretão ou como arcanjo cintilante que pune ou  premia, o que separa os bons dos ruins e que  transparece além da épica das suas composições, da lírica da sua mesma palheta, luminosíssima, predominada pelo rosa na gama de tonalidade das mais intensas às mais frágeis, veladas nos tons  violetas, lilás e alaranjados, [que] espiritualiza a obra  pictórica até à castidade de toda contaminação derivada da matéria. O contexto naïf no final, é simplesmente pré-textual visto que , decididamente, o seu gênero pictórico é um tipo de expressionismo metafisico, surrealista, totalmente “sui generis”, que se insere belamente no simbolismo expressionista do novecentos italiano acrescentando uma nota de particular motivo vigorosamente satírico, infantilmente descontraído, poeticamente seráfico, pictoricamente inspirado e válido que o ressalta entre os mais interessantes artistas do movimento expressionista mundial”.

Continuamos agora na tentativa de ordenar  os símbolos constitutivos do vocabulário poético e expressivo de D’Artagnan:      

 . A abóbora, primeiro objeto de  interesse, é desenhada e colorida em 1939. Só depois de quase trinta anos, ele voltou a trabalhar com desenhos coloridos. Ela aparece, pequena ou grande, em muitíssimos trabalhos, até os últimos anos; D‘Artagnan afirmava que  ela era o símbolo do seu passado camponês e que ligava a fertilidade da natureza ao seu fruto maior: terra, água, eros, trabalho e alimento eram para ser considerados seus elementos.

 .  A máscara e o vulto é também o outro símbolo perenemente presente nos trabalhos de  D’Artagnan; os vultos pintados sejam talvez lembrança  das máscaras da Comédia da arte da sua Veneza. Certo é que o fascínio despertado em D’Artagnan pelos vultos/máscara em alguns filmes de  Fellini, foram  diretamente expressos  a quem lhe perguntasse a origem; mais tarde se acrescenta também um toque à maneira da Parigini. É claro que não se trata de influências diretas, mas sim de estímulos considerando que as suas  máscaras são ligadas à vontade de exprimir um mundo perverso, doente, deformatório da beleza do indivíduo; devem manter porém o caráter dos absurdos, de ironia e alguma referência a uma humanidade que se esconde debaixo daquela máscara aborrecida e atônita das contrariedades do existente. Sob a máscara – não como o “Pulcinella”(polichinelo) de Serafini, onde tem o nada  e então esta  coincide com a aparência e a realidade não existindo o outro – D’Artagnan esperava que um dia ressurgisse, obra da divindade, a verdade. Ele mesmo vive dentro daqueles  invólucros fruto de uma civilização doente, e na espera que passe a epidemia, brinca e vive naquela dimensão onírica tentando encontrar refúgio e melhorar as condições. As  máscaras e os vultos  virão aplicados aos corpos das falofanias, da Harpia , da testemunha e aos pés com cabeça. Nas falofanias a máscara é frequentemente     caricatural com língua de fora ou também enfeitada como no  “Reve d’une jeune fille”. Um discurso todo particular diz respeito à  máscara, a

·       cabeleira. Com grande intensidade no ano ’69 ele desenha variedades numerosíssimas e extravagantes de cabeleiras ou penteados, para fazer quase uma antologia para cabeleireiros. Mas porque esta frenética fertilidade na invenção de cabeleiras que depois continuará também nos quadros corais? D’Artagnan falava de mostrar sobre a cabeça a riqueza da imaginação; e também o  quanto podia sair e ser mostrado em um cérebro mais livre,original, criador, artista.  A máscara

·       testemunha ou o expectador, aparece nas cenas mistas, atrás das casas ou das flores com um ambíguo sorriso de comédia;  como a definição na Poética di Aristóteles: “O ridículo, (isto é que move ao riso o  geloionγελοίον)… é próprio como a máscara cômica alguma coisa de feio e de transtornado sem sofrimento”. A máscara da Harpia aparece no último período de D’Artagnan  testemunhando  como na antiguidade  uma força do mal – portadora de tempestade. Quatro ou cinco desenhos que ficaram entre aqueles destruídos,  mostravam aquela eterna presença que se opunha   levando a  ruína os seus projetos, sobretudo a casa. Onde é presente a Harpia todos os sinais no quadro se movem e se confundem quase abstraindo-se,  a testemunha, a presença da tempestade e do vento furioso que destrói tudo : não é porém em plena ação, é ao contrário uma  presença ameaçadora. D’Artagnan recitava frequentemente  do Orlando Furioso a estrofe sobre Harpias: “Eram sete em uma fileira e todas tinham vultos de mulher, pálidas e amortecidas,/ Pela longa fome atenuadas e enxutas/ Horríveis de se ver mais do que a morte…”. Depois tinha feito referência a outros  mitos e brincava com os números:  Hesiodio  nominava só duas, ou  três, e fazia ressaltar em fato a diferença com Ariosto que  enumeram  sete delas. Citava Dante “Quivi le brutte Arpie lor nidi fanno/…Ali hanno late e colli e visi umani / Pie’ con artigli…”. Aqui vi  as Harpias feias que fazem seus ninhos/…Tem asas pescoços e rostos humanos/ Pés com garras…” Mas amava o verso de Virgílio da Eneide: Virginei volucrum vultus…”, porque a fúria devastadora vinha de seres famintos todavia puros e virgens. Talvez querendo confessar como por um “transfert” que a possível razão da sua catástrofe social fosse ele mesmo, ainda virgem para o  mundo que devia conhecê-lo e entretanto  infuriado. Certamente este símbolo tardio na mitografia de D’Artagnan é um dos mais negativos presentes nas suas obras. Se trata por acaso de  uma espécie de “furor heroíco” descrito por Giordano Bruno no seu ensaio de 1585? Assim o define o  filósofo queimado pela Inquisição: “O furor heroíco é próprio do espírito lúcido.. que prensado pelo jogo do desejo e movido por um estímulo interno e fervor natural pela verdade, acende mais que  ordinariamente a luz racional”. Tinha visto e previsto também a sua impossibilidade de afirmação e de reconhecimento social?

·       A cabeça ou a máscara sobre os pés é um evidente símbolo da mutilação do homem moderno consequência de uma renúncia freudiana ao  princípio do prazer pelo princípio da necessidade ou em geral à renúncia do amor pela fixação da mercadoria. O ícone vai, seja como for, reconduzido ao espirituoso e brilhante sarcasmo de D ‘Artagnan. Em estreita conecção com este último ícone ele utiliza

·       O anel de saturno recordação da idade do ouro sob o domínio do deus  Saturno, quando os homens  viviam em feliz comunhão , como em  um paraíso terrestre, “onde escorriam rios de leite e de mel , os  animais eram todos mansos e não era preciso trabalhar  na terra”.

Talvez o aspecto que mais visivelmente evidencia a exaltação da vida em D’Artagnan e manda novamente para aquilo que se pode definir como sendo  o seu vitalismo erótico é obviamente conexo aos falos e isto é às

·       *Falofanias  Precisamente “Falofania” é um termo inventado que quer

exprimir a aparição da  divindade fálica. Os Silenos ou Sátiros que desfilavam com falo ereto nas procissões rituais do deus Dionísio (Baco) onde eram presentes  as Mênades, os animais sacros, tocadores de instrumentos e falofori, os quais transportavam o simulacro do falo,  qual símbolo da fecundidade e da fertilidade. Semelhantemente sucedia com o filho de Dionísio e de Afrodite, Priapo: ele corresponde ao mesmo falo, símbolo da eterna força regenerativa da natureza. Hera,(a mãe dos deuses)quis o vulto dele muito feio, e é então frequentemente representado como um homem rude, robusto e barbudo munido de um falo desproporcional. D’Artagnan além da árvore da vida, da abóbora, da casa, da vulva, das flores usa em maneira quase constante o falo nos seus quadros, próprio para  testemunhar a explosão da vida no regenerar-se da natureza. Nas duas breves excursões que ele fez a  Nápolis e a Pompéia, em 1969 e 1982, citava  contos sobres várias estatuetas, pinturas,  mosaicos nos quais tinha visto várias representações fálicas e cenas eróticas que o maravilharam enquanto símbolos de vida. Tinha também aprofundado o conhecimento nos livros de arte. Também a estatueta em  bronze de  Mercúrio pentafálico do Museu Nacional de Nápolis, o encantou, tanto que conservou uma foto. Isto explicaria porque algumas vezes tem mais falos unidos em um mesmo sujeito. Assim coligou o mundo fálico à representação da fecundidade e fertilidade da natureza e o derramou nos seus quadros. Frequentemente transforma o falo em uma divinidade semelhante ao sol, veja “Reve d’une jeune fille” e “Il trionfo di Priapo” ou, ejaculações de pétalas e flores que colorem a tristeza da terra abandonada pelo amor, como no seu “Quo vadis petit”  ou no “Miracolo di Priapo”. Que tal visão manda novamente a Alberich (dal Rheingold di Wagner) que pelo poder do ouro, pelos bens materiais renuncia e repudia o amor ou a Freia deusa do amor raptada pelos gigantes e cuja ausência fará a terra velha, cinza e escassa perder o vigor, era um motivo recorrente nas discussões com D’Artagnan naturalmente sempre irônicas. Efetivamente o amor que ao seu redor sentia falta desde o nascimento o imaginava  ressurgir daquele seu universo colorido e vitalista .

·       Assim como carregado de  impetuosa vitalidade é o tronco ou árvore da vida ou do conhecimento, com direta referência bíblica onde as primeiras criaturas humanas comeram o fruto proibido. Também para Zeus era sagrado o carvalho           Dione (que era uma deusa) com a qual casou-se no mais antigo oráculo helênico, Dodona. É a imagem da grande árvore do mundo que se ergue até o céu e com as raízes nas entranhas da terra para regenerar o universo como se explica na Edda de Snorri Sturluson (XIII sec.). Os Finni adoravam a árvore cósmica dos quais ramos de ouro enchiam o céu: a prosperidade da vida e a abundância sobre a terra era fruto da sua presença, ou no Tao dos antigos chineses onde se manifesta ‘como uma árvore’ do vazio primordial o sopro do criador. Eu prolonguei , e se pudesse continuaria a falar  ao infinito, sobre os vários significados que as árvores tem sempre tido junto a todos os povos. Isto porque a obstinação com a qual estas(o tronco ou a árvore da vida) se  apresentam em muitíssimos desenhos de D’Artagnan demonstra o quanto fosse importante para ele sonhar o legame com o Pai celeste, com os frutos de quem enchia a terra, somente  pelo atributo da consciência, pela beleza, a soberanidade e a força. As suas árvores, juntas às

·        Flores    De fato inundam de  beleza e de cor a natureza ao ponto de  transformarem-se também  símbolos de explosão orgiástica, fundindo-se e  coligando-se aos falos, às  vulvas e às casas

·       A Casa é seguramente o ícone mais presente em toda sua produção. Tem casas e casinhas em toda parte. É claro que a casa para D’Artagnan – por  razões contingentes e inerentes à  sua própria e terrível história - representa aquilo que lhe foi sempre negado. É a casa que nunca teve, é o calor familiar, é a vida doméstica que pulsa dentro dele, é o afeto caloroso da mãe, é o desejo sexual, é o lugar onde amparar-se do mal e da hostilidade, das  intempéries, é aquela vida interna desejada cujo calor  nós vemos sempre figurado nas suas chaminés de onde saem fumaça. Este extremo valor negado, ele o constrói no quadro como o seu desejo e o enfeita de flores, estradinhas, com estacas e lampiões. Com dificuldade de acesso e entrada. De fato frequentemente às casas se chega com uma escada na subida

·     Uma  escada, como aquela de Jacó, cujo cume tem o paraíso, Tem Deus mesmo… e é uma casa. variadíssimos tipos de escadas conduzem com prazer à porta principal da casa. Uma espécie de animal tanto amado por D’Artagnan:

·       O Pássaro, frequentemente presente nos desenhos mistos, tem funções de testemunha animal, segue as cenas,  observa, em alguns desenhos inclusive comenta como no seu pornográfico quadrinho Pax et bonum madam.É um animal amigo que também na vida ele o defende contra  “os caçadores assassinos”, e foi exatamente D’Artagnan um dos primeiros em Itália a contestar a caça. Do pássaro é também figurado o ninho contendo dois ovos.

·       O Ninho é um sinônimo de casa,  que até os animais tem direito e onde vibra a vida com  os dois ovos que devem se abrir. Não podendo mostrar ou pintar os interiores das casas, visto que lhe são negadas da realidade social, o ninho tem função de investigar um interior natural.

Sobre a centralidade  da casa no mundo imaginário de  D’Artagnan são importantes aspectos realísticos da vida quotidiana, também em sentido autobiográfico; realmente ele  introduz um ícone frequentemente utilizado na sua obra, aquele das

Roupas estentidas fora das casas é também para recordar como  ele mesmo lavava e estendia as suas roupas fora da sua barraca na favela.

·       A trompa  esta também é usada como elemento autobiográfico que algumas vezes se apresenta como complemento e outras vezes como uma chaminé ou outros objetos que tomam forma de trompa.

·       A espiral  quer  reenviar ao caracol , este também é um símbolo da casa mas também um sinal de perigo;  vale também como desejo ambivalente em reportar o externo ao interno e  vice-versa.

·       O candelabro também é  um ícone recorrente no seu vocabulário simbólico; é a luz do seu amado candelabro a três braços; era aquela luz feita de velas que nas noites frias e de insônia lhe permitia  aquecer-se e  continuar a desenhar e colorir. É também trifalo, sempre aceso, ereto, desejoso de  ‘apagar-se’ no prazer. Frequentemente é associado a outros números três, como a terça de três colcheias, os três sóis, os três olhos que estão inclusive no quadro “La trinità”. É um relacionamento estreito com o 

·       Lampião e juntos concorrem para levar luz  e mais calor às casas desenhadas quais elementos provenientes do externo autobiográfico e  outra fonte de luz natural, interna na pintura, cheia de significados religiosos, vitais e o astro resplandecente o

·       Sol  que representa, como para todos, a origem da vida, mas também testemunha divina das suas urgências sociais.  Contêm em si todos os atributos amados por D’Artagnan, primeiro entre todos a luz mãe da cor e ironicamente em algum  quadro inventa, único que eu saiba , um mundo com dois ou três sóis, eu acredito que seja  pela necessidade infinita de calor e amor, outro atributo do astro. E depois em relação com a  terra o sol  é origem da regeneração das flores, das árvores, dos frutos, dos animais obviamente em sentido comum. Para  ele é  também o pai soberano que lhe foi tirado como se fora do quadro o circundassem as trevas. É também o sol que com o seu calor estimula os homens e os animais aos desejos eróticos e então à fecundidade e à reprodução da vida.

·       O guarda-chuva e a coluna são símbolos contíguos: ambos  figuram  com remendos; ambos reparam das intempéries; mas a coluna não sustêm nenhum teto e reenvia  à história e sobretudo à história pessoal, de ter nascido coluna sem função e sem teto, sem baixos-relevos nos tímpanos, perdidos ou destruídos, a explicação da história familiar. O guarda-chuva é ao contrário o único meio para reparar-se, é o seu pequeno teto transportável. D’Artagnan estava sempre com o  guarda-chuva , mesmo nos dias quentes de verão. O usava como a coberta de Linus (personagem de Charles Brown)sem esse se sentia impotente. Era também o substituto do florete e o usava para dar prova  das suas habilidades com a esgrima aos amigos que encontrava. Frequentemente os carregava juntos, como nos últimos períodos. Nas pinturas o guarda-chuva é um desenho que frequentemente simboliza uma figura feminina: aqui também extensão dos significados fálicos? A necessidade de uma mulher e de um teto?

·       O rítmo de três colcheias em terça se relaciona à sua assinatura que prevê um florete e então a terça; é um sinal como a casa, entre os mais presentes no seu corolário inventivo; sozinho não tem um significado simbólico; representa mais uma  sigla e esta também retrata por  motivos autobiográficos: tinha estudado e tocado a trompa por muitos anos; essa porém se liga diretamente àquilo que o fazia  mais feliz:

·       A música escrita sobre pentagramas é  o desejo de unir música e sonho.  Quando me pedia para colocar um trecho dirigido por Toscanini ou  cantado pela  Callas, com os olhos entreabertos, caía em transe e começava a cantarolar em voz baixa ou a dirigir dizendo, quando terminava cansado, veja sou filho de Toscanini, mas  era claro que tinha viajado através de um delírio onírico. Tinha viajado através de um inteiro universo que lhe parecia um imenso instrumento musical e com aquela música tinha se unido à música das esferas e tinha visto o anjo musicante que está nos  confins entre matéria e espírito. Não me vem à memoria se tivesse ou não lido  Pitágoras, todavia, que eu me recorde, nunca me falou . O  sonho como a música para ele era incorpóreo; o sonho não sofria a dor, vivia divino no ar à disposição de todos para ser preso nos braços e fazê-lo realizar. O sonho etéreo é igual a música impalpável que vibra como espírito no ar  e nos nutre e é matéria tangível; ela também tem um corpo compacto, uma forma: devemos render verdadeira  a música tocando-a, no mesmo modo devemos nos empenhar para transformar em realidade os sonhos.

 D’Artagnan é a história de uma obsessão por um sonho que quer ser transformado a todo custo em realidade e também a história de uma vida negada que quer cavalgar o sonho positivo de uma realização própria.

Mas  qual era o seu sonho principal? Sempre o mesmo. A verdade das suas origens familiares. Demonstrar ao mundo que ele não era um filho do pecado; o seu talento, o seu gênio a sua força de alma não poderiam admitir uma mãe e um pai malvados. Este é o motivo condutor da vida e da obra de D’Artagnan: pensar àquela origem, ao calor doméstico , àquelas casas sempre presentes, aos falos eretos que esguicham flores, alegria,vida, amor ,então, aquele falo que o tinha colocado ao mundo não podia ser mau. Certamente D’Artagnan não era pudico ou moralista, pelo contrário o seu eros era sereno, livre, aristocrático, libertino, mas não pequeno-burguês.

 

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